A ARANHA
“Uma aranha fez sua teia num canto do meu escritório. Eu a
descobri ontem e, com a minha vassoura, tratei de me livrar dela.
Teias de aranha são sinais de descaso e eu não queria que aqueles
que me visitam pensassem mal de mim. Mas hoje ela está no mesmo
lugar. Durante a noite refez sua teia. Acho que ela gostou do lugar,
me perdoou e confia na minha compreensão. Compreende. E decidi que
ela vai ser minha companheira.
Embora ela não saiba falar, ela me fez pensar. Confesso que a aranha
me fascinou.
Primeiro por aquilo que vejo. Lá está ela, segura e feliz, pendurada
sobre o vazio. Não existe hesitação alguma nos seu passos. Suas
longas pernas se movem sobre os finos fios de sua teia com tranqüila
precisão, como se fossem dedos de um violinista, dançando sobre as
cordas. Sua teia é coisa frágil, feita com fios quase invisíveis. E,
no entanto, é perfeita, simétrica, bela, perfeitamente adequada ao
seu propósito.
Mas o fascínio tem a ver com aquilo que não vejo e só posso
imaginar. Imagino aquela criaturinha quase invisível suas patas
coladas à parede. Ela vê as outras paredes, tão distantes, e mede os
espaços vazios. E só pode contar com uma coisa para o trabalho
incrível que está para ser iniciado: um fio, ainda escondido dentro
de seu corpo.
E, então repentinamente, um salto sobre o abismo, e um universo
começa a ser criado...
Em outros tempos acho que fui um bom professor. Como a aranha eu
sabia tecer a minha teia de palavras. Eu sabia o que ensinava e só
ensinava o que sabia... Bons professores, como a aranha, sabem que
lições, estas teias de palavras, não podem ser tecidas no vazio.
Elas precisam de fundamentos.
Os fios, por finos e leves que sejam, têm de estar amarrados a
coisas sólidas: árvores, paredes, caibros. Se as amarras são
cortadas a teia é soprada pelo vento, e a aranha perde a
casa...”Professores sabem que isto vale para a educação...”
Rubem Alves, em seu livro:
O POETA,
O GUERREIRO, O PROFETA
“ O PROFESSOR”
CONSELHO DE CLASSE – 3º BIMESTRE