Cuidado
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Peça para um
pai ou uma mãe bem informados listar os problemas que enfrentam
hoje, aquele tipo de agrura no passado raramente relacionada ao
universo infantil, e a resposta é impressionante: drogas,
bebida, depressão, obesidade, distúrbios alimentares
graves. Pior, a lista é fruto não apenas da paranóia
paterna mas também da dura realidade. Segundo um levantamento
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 70% dos jovens
e adolescentes paulistas em idade escolar tomam bebida alcoólica
em algum momento. Uma pesquisa feita em dezesseis cidades brasileiras
mostra que 58% dos garotos e garotas de 12 a 14 anos fizeram uso
de drogas pelo menos uma vez na vida. A sociedade Brasileira de
Pediatria aponta a obesidade como um mal que já afeta 15%
das crianças no país. Por estimativa da Organização
Mundial de Saúde, 20% dos adolescentes sofrem de depressão.
Cada um desses problemas tem origem em fatores complexos, que vão
desde aspectos genéticos até o nível de vida
de comunidade. Um elemento, no entanto, permeia todos eles: a baixa
auto-estima. Médicos e psicólogos cada vez mais identificam
uma série de aflições comportamentais nesse
sentimento de que não se é bom o suficiente, ou pior,
“não presta”, “não vale”,
“não merece”. Um exemplo extremo: a introdução
à bebida ou às drogas. “Quem tem uma boa auto-estima
vai ser capaz de dizer não, porque não teme perder
o apoio do grupo”, avalia Tânia Zagury, educador da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializada em adolescentes.
“Mas, se a criança for insegura, não vai resistir
ao primeiro “filhinho da mamãe” – acaba
cedendo.”
Os estudos que avaliam
a importância da auto-estima no bom desenvolvimento das crianças
proliferam nos países desenvolvidos, onde os problemas básicos
já foram resolvidos e é possível se concentrar
nas angústias da alma. No começo deste ano, pesquisadores
da Universidades Harvard concluíram que, na dolorosa seara
da anorexia e da bulimia, os distúrbios alimentares mais
graves, a baixa auto-estima é um requisito essencial para
a evolução da doença: toda menina obcecada
em emagrecer age assim porque não se acha bonita e, se não
é bonita, não vai conseguir arranjar amigos e namorados.
No fim de junho, especialistas do mundo inteiro participaram em
San Francisco, Califórnia, do congresso “Como preparar
a juventude para o século XXI”, no qual o tema central
foi justamente o papel de auto estima. “Cerca de 30% dos jovens
americanos não se tornam cidadãos produtivos porque
não se sentem bem consigo mesmos”, afirma Robert Reasoner,
autor do livro Auto-Estima e Juventude – O que Dizem as Pesquisas.
“Quem conhece e valoriza suas qualidades e confia nelas tem
menos probabilidade de pertencer a esse grupo.”
Difícil equilíbrio
– Auto-estima é, numa definição simplificada,
o que a pessoa sente em relação a si mesma. Quando
positiva, significa que ela se tem em boa conta, acredita que outros
gostam dela e confia em sua habilidade de lidar com desafios. Quando
negativa, acha que não merece o amor de ninguém porque
não sabe fazer nada direito, podendo vir a se tornar excessivamente
tímida e sem iniciativa, ou, no extremo oposto se rebelar
contra tudo e todos. Freud, no começo do século, foi
o primeiro a teorizar que o amor-próprio, o nome antigo do
mesmo sentimento, é obrigatório em uma existência
satisfatória. Solidificá-lo faz parte do processo
de aprendizagem de vida. Nas crianças que vêm ao mundo
com o essencial – o amor materno –, esse processo caminha
bem no primeiro ano de vida, quando a mãe que é mãe,
com seu olhar coruja, faz o bebê se sentir foco de todo o
afeto do mundo. Na fase seguinte, do desenvolvimento motor, ocasião
em que a criança começa a dar os primeiros passos,
aos carinhos e cuidados soma-se a necessidade daquele “muito
bem”, o cumprimento obrigatório a tarefas como comer
sozinha e amarrar os sapatos. Na segunda infância, o cimento
da auto-estima é o sucesso na escola, que não é
sinônimo de notas altas, mas sim da percepção
de que é capaz de aprender, de se sentir estimulada e de
ter prazer nas descobertas. A moçada gosta de si mesma se
tiver amigos e se sentir que é querida pelos colegas.
Para os pais, achar
a medida certa, na hora de estimular a auto-estima, exige doses
de bom senso e capacidade de discernimento, entre tendências
aparentemente contraditórias. “Tivemos a fase do “não”,
na qual o filho era adestrado, através de limites rígidos,
a fazer isso ou aquilo”, explica o psiquiatra paulista Içami
Tiba, especialista em crianças adolescentes. “Depois
veio a reação, com o “sim” para tudo.
Agora, os pais estão buscando o equilíbrio.”
Que ninguém se iluda – este difícil equilíbrio
exige habilidade de malabarista de circo. Pais superprotetores estimulam
nos filhos uma auto-imagem negativa: por um lado acham que não
valem nada porque papai resolve tudo; por outro lado mal acostumados
a ter o que querem de mão beijada, exigem cada vez mais e,
não sendo atendidos, se sentem diminuídos, como se
o mundo não gostasse mais deles. Já pais obcecados
com a performance dos filhos, que exigem um comportamento impecável
e notas excelentes, podem acabar sabotando-os. “Tímidos,
em geral, têm baixa apreciação de si porque
seus pais, excessivamente críticos, não lhes deram
a segurança de ser amados. Não se sentindo amados,
eles não se gostam”, conclui Tiba.